Com uma singela espontaneidade, Elaine Brum narra uma metrópole que ninguém, ou quase ninguém, vê. Conta histórias de mendigos que se arrastam pelo centro cheio de pernas da cidade, loucos misteriosos andarilhos do mundo, imponentes estátuas esquecidas e mijadas. Reflete sobre os homens e suas existências num passeio pelo zoológico, com a mesma simplicidade que revela os esconderijos e as vidas de muitos esquecidos do mundo.
São vidas invisíveis que assumem formas pitorescas e humanas no texto ágil e escorreito da autora. Dotada de um olhar apurado e terno, ela busca os mais impossíveis cantos esquecidos da cidade. Apresenta-nos, muitas vezes com ternura e sentimento, mas sem cair no sentimentalismo bobo e exagerado, uma Porto Alegre que ninguém vê. Mas que agora está exposta em simpáticos traços no livro A vida que ninguém vê, lançado pela editora Arquipélago e vencedor do Prêmio Jabuti de 2007, na categoria livro de reportagem.
A leitura flui com extrema naturalidade. Os capítulos curtos e diretos vão prendendo a nossa atenção do início até fim. Depois de pegar é difícil largar. E vale bastante a pena prender-se a ele. Um sutil e original toque de realidade sobre o invisível cotidiano de uma Porto Alegre escondida e ignorada.

A Vida que Ninguém Vê, de Eliane Brum. Arquipélago, 208 pág., R$ 32.
Lindo este livro!